“Eles, monstros fascistasTu, herói comunista protótipo da
humanidade futuraEles, vermes
anônimosTu, Manoel Lisboa
de Moura.”
Há exatos 40 anos, era assassinado,
provavelmente em Recife, Manoel Lisboa, um dos líderes alagoanos que deram a
vida pela democracia brasileira. Manoel Lisboa de Moura era conhecido por
seus companheiros como Galego, Celso, Zé, Mário e outros nomes. Nenhum
capricho. Era preciso despistar os agentes da ditadura militar que o perseguiam
desde que a ditadura se instalara no país em 1º de abril de 1964. Por que ele
era um dos homens mais temidos pelo regime fascista, que impôs ao povo
brasileiro uma longa noite de terror? Deixemos que o jovem herói fale um pouco
de sua própria história.
Manoel Lisboa de Moura nasceu em Maceió,
estado de Alagoas, no dia 21 de fevereiro de 1944, filho de Augusto de Moura
Castro, oficial da Marinha, e de
Iracilda Lisboa de Moura. Sua formação político-ideológica não se deu apenas
por meio de leituras, nem sua prisão ocorreu simplesmente por ele vender livros proibidos. Ainda adolescente,
organizou o grêmio do antigo Liceu Alagoano, depois Colégio Estadual. Foi
diretor da União dos Estudantes Secundaristas de Alagoas (Uesa) e, aos16 anos,
ingressou na Juventude Comunista do PCB. Como universitário, organizou o Centro
Popular de Cultura da UNE (CPC) em Maceió, apresentou e dirigiu peças de
teatro, envolvendo, inclusive, operários da estiva.
O Golpe Militar de 1964 o encontrou cursando Medicina na
Universidade Federal de Alagoas (Ufal), de onde o expulsou, cassando-lhe os
direitos políticos. Nessa ocasião, pertencia ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB),
organização criada em 1962, diante da linha reformista adotada pelo velho
“Partidão” desde o 20º Congresso do PC da União Soviética, fato que provocou a
cisão dos militantes.
Lisboa transferiu-se para o Recife, onde continuou na
luta revolucionária. Trabalhava na Companhia de Eletrificação Rural do Nordeste
(Cerne). Em julho de 1966, foi novamente preso, logo após o atentado contra o
ditador de plantão, marechal Artur da Costa e Silva, ocorrido no Aeroporto dos
Guararapes. A polícia não conseguiu incriminá-lo, pois o inquérito comprovou
que ele, no momento do ocorrido, estava trabalhando na Cerne com seu irmão,
engenheiro e capitão do Exército. Posto em liberdade quatro dias depois,
concluiu que não era possível continuar levando uma vida legal e dedicar-se à
causa revolucionária, optando então pela vida clandestina. Em meados de 1966, Manoel Lisboa resolveu sair do PCdoB
por constatar que o partido se diferenciava do PCB apenas na teoria, enquanto
na prática seguia o mesmo caminho reformista, além de desprezar o Nordeste e
praticar métodos de direção incorretos. Por exemplo: em vez de dialogar com os
militantes de base, ao receber críticas ao seu trabalho, a direção desenvolvia
campanha de desmoralização com calúnias contra aqueles que questionavam alguma
de suas atitudes.
Dezembro de 1966: Manoel Lisboa, Amaro
Luiz de Carvalho, o Capivara, Ricardo Zarattini Filho (engenheiro, banido do
Brasil em 1969 depois do seqüestro do embaixador estadunidense) e outros
companheiros fundaram o Partido Comunista Revolucionário (PCR).
No dia 16 de agosto de 1973, a repressão
conseguiu seu intento. Quando conversava com uma operária, a quem dava
assistência política na Praça Ian Flemming, no bairro de Rosarinho, Manoel
Lisboa foi agarrado por um bando de fascistas, sob as ordens do agente Luís
Miranda e do delegado paulista Sérgio Fleury, algemado, arrastado para um
veículo e conduzido para o DOI-Codi do 4º Exército, então situado no Parque 13
de Maio. Manoel Lisboa foi submetido a todo tipo de tortura.
Despido, pendurado no pau-de-arara, espancado por todo o corpo, choques
elétricos no pênis, nas mãos, nos pés, nas orelhas, queimado com vela, logo nos
primeiros dias perdeu a sensibilidade dos membros inferiores. Não podia se
locomover nem se alimentar. Manoel sabia tudo da organização. Era seu dirigente
máximo, conhecia todos os segredos. Um segundo de vacilação e o PCR estaria
completamente aniquilado. Mas ele foi coerente com o que sempre pregara:
“Delação é traição e a traição é pior do que a morte. O revolucionário é como
um prisioneiro de guerra; só declina o próprio nome. A causa revolucionária, a
democracia, a libertação nacional, o socialismo estão acima da própria vida”.
Maria do Carmo Tomaz e Juarez José Gomes viram-no cheio de hematomas e ouviram
seus gritos. Outros prisioneiros chegaram a falar com ele, que disse: “Sei que
minha hora chegou; fiz o que pude; a vocês, peço apenas que continuem o
trabalho do Partido”.
Num certo dia do mês de setembro, ela não recorda a data,
Maria do Carmo Tomaz foi levada a uma câmara de tortura, onde lhe deram a
notícia da morte de Manoel Lisboa e afirmaram: “Um igual àquele vocês não vão
encontrar nunca mais”. Enganaram-se. Na luta do povo, no seio do Partido que
fundou e dirigiu, diariamente se forjam revolucionários da têmpera de Manoel
Lisboa, à luz do seu exemplo, regados pelo seu sangue.
No dia 5 de setembro, os jornais do Recife e os
principais jornais do país publicaram nota que dizia: “Durante tiroteio com os
órgãos de segurança interna, morreram na manhã de ontem em Moema, São Paulo, os
terroristas Manoel Lisboa de Moura e Emmanuel Bezerra dos Santos, que fizeram
parte do atentado ao marechal Costa e Silva, então presidente da República, em
visita ao Recife, em 1966″.
A farsa foi facilmente desmontada. Emmanuel Bezerra
estava em missão do Partido no exterior e encontrar-se-ia com Lisboa no Recife,
no dia 15 de setembro. Preso pela Operação Condor, provavelmente na fronteira
entre Argentina e Chile, Bezerra foi conduzido ao DOI-Codi de São Paulo,
torturado e morto por não abrir as informações de que a repressão precisava
para destruir o Partido. Fleury levou Manoel Lisboa para São Paulo apenas para
montar a farsa. A vida mostrou, entretanto, que os verdadeiros terroristas eram
Fleury e Miranda, e que, Manoel Lisboa e Emanuel Bezerra são heróis do povo.
Manoel tinha amor à vida. Era feliz, tanto por sua
militância, como por sua vida pessoal. Tinha uma companheira, Selma Bandeira,
com quem mantinha relação amorosa plena, baseada não apenas em afinidades, mas
na militância revolucionária comum. Um amor comunista. Mas a tudo isso ele
renunciou, confirmando a tese de Che Guevara, de que “o verdadeiro
revolucionário é movido por grandes sentimentos de amor”, um amor maior, pela
humanidade, livre das opressões e das injustiças.
“Manoel é exemplo de um verdadeiro revolucionário, que não vacilava em colocar os interesses de seu povo e da revolução acima dos interesses pessoais. Homens como Manoel são os que fazem a diferença, e como, disse Brecht, são os imprescindíveis. É um orgulho e uma honra para todo comunista ser membro do PCR, o Partido fundado por Manoel Lisboa”.
Lula Falcão, diretor de e A Verdade e membro do Comitê Central do PCR
Extraído de adaptado de PCR Brasil
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